Foi entrando na minha vida levemente, sem fazer grande alarido à sua passagem, pés de veludo e mãos de ladrão, leves e passadiços, deleitando-se esticada no sofá principal ao lado do radiador, aquecida pelo calor das minhas palavras. Tinha a obrigação de lhe mostrar todos os meus textos estivesse ela implícita em todos eles. Queria mostrar-me através deles visto faltarem-me as palavras quando tinha de falar. O meu modo idiota de racionalizar o amor. Quanto mais tempo ela ocupava o sofá mais cigarros se iam amontoando no cinzeiro metálico. O meu corpo reaccionário àquela invasão prematura do meu espaço, o meu cérebro limitado pela conquista forçada de fronteiras, as minhas, as minhas mãos acorrentadas como pintadas na foto de apresentação, uma pena que não me pediram para cumprir, além da minha vontade, uma democracia violada. Vou-me aguentando com as minhas incertezas, enganos e imperfeições, chegadas e partidas, respostas falsas para a explicação de tudo. Doem mais as chegadas, as investidas aparentes que acabam por não o ser, os ataques e as retiradas, eu sou magro demais para segurar todos esses exércitos. Quando se parte raramente se quebra, apenas vamos. As horas tardias vão-me desgastando. Basta o tempo que perdemos, que podíamos e não o fomos, que quisemos e não o fizemos, e todas a palavras agora estão de retirada, continuas em poemas que não consigo simbolizar, continuo em prosas que não consigo terminar, e falar porquê das cartas que nunca foram dactilografadas, nem assinadas, nem enviadas quanto mais lidas. O frio impõe-se cada vez mais com a chegada da manhã. Sente-se já a pressão dos raios de sol a rasgar a ténue escuridão da noite. O sono vai pesando. Tudo o que dela guardo está limitado à capa e contra capa de um álbum de fotografias comprado num hipermercado qualquer. Ia dizendo que ela foi entrando e apertando o cerco, o ar que eu respirava não bastava para os dois. Lia os livros que eu lia, sentava-se na minha cadeira do café, aquela junto à montra explanando o movimento do mundo do outro lado do vidro, os carros a parar e a arrancar, os semáforos a mudar, as pessoas frenéticas sem rumo, de lado para lado, para um sitio qualquer, eu via essas pequenas coisas, no entanto, ela sentava-se nessa cadeira e via o que eu via, bebia o meu café da minha chávena, fumava os meus cigarros tirados do meu maço, apagados no cinzeiro de toda a gente. Sempre que ela demorava sentada no sofá o cinzeiro cinzento metálico ia-se saturando de cinza e pontas de cigarro. Falava com os meus amigos as conversa que eram minhas utilizando as ideias que não eram dela, poderiam ser minhas, e ria-se das minhas piadas idiotas. Isto sim, provoca em mim erupções violáceas, cerrar as mãos e unir os dentes, olhá-la seguro de mim, só contigo perco a luz desorientado, e pensar na última vez, pedir desejos de nunca mais, tens de ir porque podemos morrer os dois asfixiados, a faltarem-me as palavras para explicar que a nossa relação não passara de uma curta redacção da escola primária, simples e concreta mas ao mesmo tempo de uma complexidade que só agora vou entendendo, tens de ir, largar o meu perfume, perder-me do teu sentido, ela não sabia que a amizade é igual aos triângulos, três lados espelhados uns nos outros, as medidas onde o amor não cabe por ocupar tempo demais, uma exigência que nem a todos cabe cumprir. Agora, falamos das vidas perpendiculares que vamos vivendo, encontrando-nos ao acaso da espontaneidade, duas, três vezes por ano e falo-lhe de ti e vejo que os olhos dela irradiam ciúme e tristeza, questionam-se onde e porque terão falhado, qual a mentira ou a verdade que não conseguiram encobrir.
Escrito por
loverboy em
17:27:23 |
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