Maio 28, 2007

Ùltimo Capitulo

 

Acaba-se uma história, o mesmo final de sempre, trágico como a essência que nos vai unindo, acaba-se um trajecto repleto de imagens, frames, milisegundos de relãmpagos que nos vão deixando cansados e velhos. Não é de todo ordinário dizer que podemos provocar reacções com aquilo que escrevemos, dizemos ou ambos, com as coisas que realmente nos acontecem e deixam de ser segredo porque as expusemos ou, pelo contrário, podemos provocar sensações com aquilo que inventamos, que não aconteceram porque não deixamos ou não quisemos que acontecessem....

Estou curado uma vez mais, ou não,  destas pequenas doenças que nos provocam uma leve dor de estômago, a melhor dor de todas, a que gostamos de sentir e queremos mais. Tu sabes do que estou a falar porque também a sentiste e sei que a vais voltar a sentir embora outras coisas de peso maior e diferente nos coloquem nos piores antros, ás piores horas com as pessoas mais estranhas... há dilemas que nunca deixarão de o ser apenas por serem dilemas! Nunca saberemos de que lado nasce o sol... um beijo de despedida para ti

 

Escrito por loverboy em 18:29:09 | Link permanente | Comments (3) |

Abril 25, 2006

33.

Nós os dois, e sempre a nossa cidade como cenário posterior, dentro de um táxi num fim de noite comum, tomados pela luxúria da noite e embriagados pelo perfume do desejo, com um rumo certo de volta e a certeza de não o querermos, pelo menos por momentos ocorreu-me pedir ao senhor agarrado ao volante para fazer inversão de marcha, voltar ao lugar onde carregamos no pause, recuar nos capítulos, detesto quando o filme acaba e o genérico sobe descrevendo os participantes e equipa técnica. Saíramos de uma discoteca pela segunda vez, esta a definitiva e estava a acabar a noite nas horas e no espaço, eu que morro depois de cada festa. A casa de banho ocupada por riscos de lavatório e pastilhas cedidas gratuitamente a levarem-me ao abismo de outros tempos, a contribuírem em excesso para a estampagem da minha loucura nos meus gestos, nas minhas palavras, e tu sem o saberes, eu sem tu dizer, talvez a querer convidar-te a inoxidares o corpo, demasiado frágil o teu, o medo de não conhecer o teu limite, e não conheço. Tínhamos entregue horas antes a pessoa que te acompanhava, uma parte do teu clã, alguém de quem gosto desconfiadamente por intentos diferentes da parte dela. São assim as pessoas, não conseguimos agradar a toda a gente. E hoje é feriado, comemora-se a liberdade de um povo, estou aqui a celebrar a tua imortalização, o teu último sorriso nesta festa quase morta, calaram-se as músicas e os corpos dançantes, apenas o auto-rádio do táxi sintonizado numa pequena rádio local, a noticiar as obras que acontecerão brevemente no centro da cidade, a complicar o trânsito, eu com vontade de gritar ao taxista para abrandar o seu ímpeto, ele a querer ver-nos separados o quão rápido possível fosse, nós de mãos dadas, eu que vejo nas mãos todos os sentidos do mundo, os teus dedos a escreverem a poesia dos teus olhos semimágicos, sabes que depois de te deixar pedi ao taxista para parar mais à frente porque tive de fumar um cigarro para conter as lágrimas que queriam largar-se. Nem sempre consigo controlar a velocidade do meu corpo adormecido pela cocaína, não importa o ficarmos sem alma, interessam apenas os sorrisos e os sentidos, o morrermos no final de cada festa, e a nossa acabou e tu tiveste de morrer, eu matei-te, eu quis matar-te, precisava matar-te e agora estou aqui ao teu lado, erguendo as melhores recordações porque ainda me sinto o teu homem, aquele de todas as possibilidades, aquele de todas as loucuras. Se partes magoada comigo para um espaço se silêncio e sem escadas, se um qualquer sentimento de traição em ti se vai alimentando, tudo isto é sobrevivência, podemos aumentar o volume das nossas zangas mas nunca reduzir o alcance das frequências que nos unem, são estas as consequências da nossa queda, este foi o risco que assumimos, ou assumi sem te dizer nada, e não posso viver contigo, nem sem ti, e quebrei, e agora sei-te ai deitada nesse estúpido leito fechado, não o quero abrir, não quero ouvir o eco dos teus reflexos lilás, nem partir  o coração com a compaixão das pessoas a chorar a tua pele mais pálida do que a tua. Um último beijo?!, estou a espremer-me em coragem…
Escrito por loverboy em 00:43:09 | Link permanente | Comments (1) |

Abril 13, 2006

Sinto-me capaz de descrever a força do teu desejo como se a operação fosse simples, é o teu cheiro de fêmea espalhado pela cidade, são os outros que te rodeiam e querem, não com a mesma intensidade como eu, e não me apetece voltar a falar da casa, dos amigos de sempre nem da loucura da vida, quero falar de ti nesta última hora que nos resta. Volto a dizer-te que não conseguia aguentar o resto da minha magra existência se estivesse ausente na tua despedida definitiva, e aparente pois só fisicamente desaparecerás. Talvez não o quisesses, talvez tivesses idealizado esta última noite fechada nas tuas recordações, escolhendo as que queres levar contigo, será que faço parte delas?!, mas eu ofereci-me, arranjei forma de o fazer e aqui estamos, frente a frente na nossa ultima batalha, tal como nos conhecemos, um de nós ausente, tu, ou eu, um de nós a querer conhecer o outro e entendê-lo, tu ou eu, e vais querer saber o conteúdo do segredo, faço questão que o leves contigo, só sabendo-o enterrado poderei respirar de alivio. Sempre me faltou expressão para estes momentos de dizer adeus, talvez por não conseguir chorar, abala-me apenas o frio espaço que vai ficar vago com a partida do teu rosto insubstituível, eu que sei jamais esquecer-te, também não me esforço nem quero. Acho que voltarás a ser numa outra vida. Chega de lamúrias a lembrar a Florbela, afinal todo este conceito se baseia em lembrar as coisas boas de ti, uma homenagem camuflada pelo fétido cheiro do arrependimento. Fui eu quem te matou, quem te colocou o veneno na língua para que escorresse esófago abaixo até ao estômago, depois fui-me, escondido sobre esta imagem substancial de algo monstruoso ter sido concretizado, estes suores vão denunciar-me um dia, não tive coragem para ver o veneno inundar-te o sangue e colocar-te por terra inanimada, é tudo sempre tão rápido. Eu que me considerava o mais racional dos amantes a colocar o meu medo nas tuas mãos e a minha entrega nos teus lábios. Agora todo o teu corpo está gelado vestido de uma cor lilás deveras subtil, a cor da despedida. A tua imortalidade estampada nas minhas memórias. Como é tão difícil trazer até nós aquela que é e depois tão fácil perdê-la… eu quis perder-te, largar-te, soltar-te, perder-me, largar-me, soltar-me…sentimo-nos perdidos quando não sabemos o caminho para voltar, principalmente quando somos os últimos a sair da festa.   
Escrito por loverboy em 18:53:25 | Link permanente | Comments (0) |

Março 22, 2006

A casa dos sonhos e das ambições, dos egos enormes a lembrar um oceano, das loucuras sem linha de horizonte, desmedidas, a casa onde todos queriam estar mesmo os que só a conheciam por fora. Anos mais tarde alguém criou um espaço semelhante numa metragem escocesa de algum sucesso. Até o nome da metragem equivalia à penúria degradante do que realmente acontecia no interior das quatro paredes. A persiana estragada não deixava de modo algum penetrar a luz do sol na divisão principal, a sala de todos estarem. O quadrado das viagens, sem porta, grande parte dos tacos rectangulares de madeira saídos do seu lugar original, um puzzle de quarenta peças, um sofá que servia de cama a quem o ocupasse primeiro, uns cobertores espalhados pelo chão que serviam de agasalho a quem neles pegasse primeiro, o pessoal do teatro que por vezes ai representavam mesmo não estando lá, a dicotomia das viagens sem controlo, colocar parte do mobiliário, o pouco que ia existindo, no hall de entrada do prédio, só porque não queríamos ser incomodados pelo pessoal do teatro que não estava lá, ou estava antes de se transformarem em mobiliário, ou nunca foram mobiliário e os vizinhos tentaram enganar-nos. A acidez convulsa a remexer o nosso cérebro. Assustavam as sombras desenhadas na parede, havia uma sombra a mais sempre que decidíamos contar as pessoas que ali estavam, uma sombra sobrava, um corpo invisível assentava connosco sem se manifestar, ainda não existe ciência que explique estas coisas, ou um de nós possuía duas sombras, eu que passei dias a olhar a minha sombra para descobrir se esta se desdobrava numa outra, eu que estudei as sombras de todos os outros sem que eles notassem, não fossem chamar-me louco por uma loucura que não era minha. Tão fácil criar outro mundo paralelo ao nosso. De inicio, muito antes de aparecerem as mulheres de que te quero falar, tu também já existias noutra latitude que não a minha, virias mais tarde iluminada da tua grandeza, éramos três, depois quatro, depois cinco, mas quero falar-te apenas dos três iluminados pelos gritos da revolução que acabou por não acontecer em massa como pretendíamos, digamos que apenas aconteceu em nós e em todos aqueles, alguns em bom número, que seguiam, entendiam, e estimulavam a nossa criatividade. Acho que já te tinha falado nisto anteriormente. Nós os três afogados no oceano que queríamos transbordar. O limite viciado de nunca saber como parar, ou saber e não querer, puxados pelo nevoeiro que acompanha o abismo, procurar a excelência da vida no confronto com a morte, a derradeira luta adiantada ainda jovens, atravessar à outra margem por uma ponte demasiado frágil, ainda sou assim, a minha personalidade foi delineada nesses anos, ou brande parte dela.
Escrito por loverboy em 00:00:29 | Link permanente | Comments (0) |

Março 12, 2006

Sobraram minutos para espiar os segredos a explodir em ti.

(são esses os segredos que nos conduzem ao anonimato)...

Movimentava-se pela cidade erguendo o sol sobre a cabeça esperando que o peso deste explicasse a sua existência. Mantinha o queixo paralelo ao solo e os olhos ávidos por outros olhos. A informação néon electrizava-a, o barulho dos carros acumulados seguidos pela rua abaixo enervavam-na, as passadas largas e céleres dos transeuntes faziam sentir-se um caracol e só o cair ininterrupto de chuva, que colavam os raios de sol à face, davam força e prazer para prosseguir a caminhada. Era ela! Muito ruído. Simplesmente anacrónico. Fazia lembrar um pintor que em horas de desgraçada incapacidade criativa decide atirar toda a tinta que restava nas latas, sempre poucas e pequenas, para a tela. Uma mancha compacta, indefinida, aparece primariamente. Deita-se em sonhos e acorda em pesadelo. A mancha ganhara forma e textura. Vende o quadro como obra de arte. O mais valioso que pintara até ao momento. Simplesmente anacrónico. Escrevo de ti... Automaticamente estala o barulho da porta a bater. Olho. A mochila presa às tuas costas e um saco de viagem na mão direita. Após tudo, outro submergiu em mim. São estas coisas que nos transformam e nos fazem... a rotina de ler o jornal, o conhecimento do mundo. Fumar, tomar café em doses industriais. Sem provas, imagens ou memórias de teres sido. Destruíram-se retratos, fotografias de quando éramos felizes e os teus olhos sonho, quadros que pintavas e espalhavas pendurados pela casa sem a necessidade de me consultares. Lixo com tudo o que foi de ti: palavras gemidos risos gestos a cair-te dos dedos... só não me larga a merda do teu perfume! Não devias ter feito isso... O livro estava assente junto ao copo. Posso?, pedi. Podias se te conhecesse, respondeu. Eu eu e tu tu, certo?, questionei. Sai da minha frente. Desaparece, respondeu de modo rude e mal criado. Vai á merda... deixa-me dar-te rosto. Queres ser sempre a peste que sombreia as paredes do quarto. Não queres ser retrato? Preferes a sombra? Deixa-me dar-te nome e cor e corpo... 0:03 Deslizas na corrente buliçosa como um pardal. Afirmada no tronco que te mantém à superfície como se o definitivo alento da vida dependesse do meu hálito As amarguras feitas pó esbatem-se pelas frases húmidas, pelos enigmas arcanos, sem corpo e remetente. Que endereço a dar a um olhar transparente? Cinco dedos pelos teus sonhos. Cela os olhos agastada. Ergue os joelhos hediondos. Espera que um suspiro te imbua hoje porque as palavras após impressas são além-túmulo... Vestiu o casaco, saiu com a pressa de quem não tem sitio onde ir. Chovia. A velha característica da cidade por violar. Pensou em todos os amantes que já tivera. De todos, sempre o segredo de ter sido o melhor. O amor não é uma questão de sexo. Ia e vinha. Um fantasma. Dele ficavam várias recordações e a vontade de o voltar a encontrar. Com ele vem a noite e as loucuras ínfimas que os envolvem. A liberdade dos prazeres nos rostos que a compõe. Caminhou durante uma hora. A roupa pesada de água colava-se ao corpo. Notavam-se todas as curvas do corpo como se de um mapa se tratasse. Um mapa actualizado. Mantinha o queixo paralelo ao solo e os olhos ávidos por outros olhos. A informação néon electrizava-a, o barulho dos carros acumulados seguidos pela rua abaixo enervavam-na, as passadas largas e céleres dos transeuntes faziam sentir-se um caracol e só o cair ininterrupto de chuva, que colavam os raios de sol à face, davam força e prazer para prosseguir a caminhada. Era ela!

Movimentava-se pela cidade erguendo o sol sobre a cabeça esperando que o peso deste explicasse a sua existência.

(são esses os segredos que nos conduzem ao anonimato)...

Escrito por loverboy em 23:33:52 | Link permanente | Comments (0) |

Março 05, 2006

31.


 A loucura enlaça-nos quando somos jovens, os limites são tracejados, definidos de curvas a cada milímetro, e a dificuldade de quase nunca sabermos onde parar. Digamos que a minha vida sempre esteve inserida nestes contornos mesmo querendo propositadamente avançar sobre a minha adolescência, os extremos por vezes assustam, não só com as mulheres mas também com as coisas e comigo. O perigo espreita quando decifradas as regras do jogo. Nem todos os espiões chegam com más intenções. Sabes que para mim o céu engloba todas as cores, os seres refinam todos os pensamentos, a chuva lava todos os presságios, bons e maus, e o sol aquece todas as peles, mesmo as escuras. Poucas vezes falamos sobre nós, quase nunca, e quando o fazíamos usávamos pessoas que nos eram comuns ou conhecidas de ambos, mas nunca te interessou o que eu estava a pensar em momentos vitais como este, este é diferente por não puderes perguntar, mas tivemos tantos outros. Eu sempre quis saber o que te ia ocorrendo no interior do crânio, procurava os sinais no movimento ansioso dos teus olhos irrequietos, nervosos, como quando tomávamos café no coração da nossa cidade. As ruas íngremes, estreitas, povoadas de corpos que vagueavam por ser fim-de-semana, a zona alta onde é difícil estacionar, onde as tascas nos abrem as inibições e o álcool nos dilui as ambições, nós no bar, uma mesa e duas cadeiras à nossa espera, as outras duas cadeiras ocupadas por duas miúdas, o termos de partilhar as nossas histórias. Nesse momento senti que a auréola das ligações pairava sobre a tua cabeça, iluminada, a encandear-me, a largar no ar estúpidos suspiros de garoto apaixonado, estávamos sós e talvez fosse esse o segredo! Poderíamos ter falado sobre nós como nunca o fizemos. Deveríamos tê-lo feito. Antes de ires para sempre, tenho a história daquela casa para te contar e o maior segredo que em mim está guardado e me magoa, quero que o saibas antes que a terra te cubra o corpo. Sei que em ti estará guardado com as mesmas intenções com que o guardo em mim.  
Escrito por loverboy em 20:49:47 | Link permanente | Comments (0) |

Março 04, 2006

Foi entrando na minha vida levemente, sem fazer grande alarido à sua passagem, pés de veludo e mãos de ladrão, leves e passadiços, deleitando-se esticada no sofá principal ao lado do radiador, aquecida pelo calor das minhas palavras. Tinha a obrigação de lhe mostrar todos os meus textos estivesse ela implícita em todos eles. Queria mostrar-me através deles visto faltarem-me as palavras quando tinha de falar. O meu modo idiota de racionalizar o amor. Quanto mais tempo ela ocupava o sofá mais cigarros se iam amontoando no cinzeiro metálico. O meu corpo reaccionário àquela invasão prematura do meu espaço, o meu cérebro limitado pela conquista forçada de fronteiras, as minhas, as minhas mãos acorrentadas como pintadas na foto de apresentação, uma pena que não me pediram para cumprir, além da minha vontade, uma democracia violada. Vou-me aguentando com as minhas incertezas, enganos e imperfeições, chegadas e partidas, respostas falsas para a explicação de tudo. Doem mais as chegadas, as investidas aparentes que acabam por não o ser, os ataques e as retiradas, eu sou magro demais para segurar todos esses exércitos. Quando se parte raramente se quebra, apenas vamos. As horas tardias vão-me desgastando. Basta o tempo que perdemos, que podíamos e não o fomos, que quisemos e não o fizemos, e todas a palavras agora estão de retirada, continuas em poemas que não consigo simbolizar, continuo em prosas que não consigo terminar, e falar porquê das cartas que nunca foram dactilografadas, nem assinadas, nem enviadas quanto mais lidas. O frio impõe-se cada vez mais com a chegada da manhã. Sente-se já a pressão dos raios de sol a rasgar a ténue escuridão da noite. O sono vai pesando. Tudo o que dela guardo está limitado à capa e contra capa de um álbum de fotografias comprado num hipermercado qualquer. Ia dizendo que ela foi entrando e apertando o cerco, o ar que eu respirava não bastava para os dois. Lia os livros que eu lia, sentava-se na minha cadeira do café, aquela junto à montra explanando o movimento do mundo do outro lado do vidro, os carros a parar e a arrancar, os semáforos a mudar, as pessoas frenéticas sem rumo, de lado para lado, para um sitio qualquer, eu via essas pequenas coisas, no entanto, ela sentava-se nessa cadeira e via o que eu via, bebia o meu café da minha chávena, fumava os meus cigarros tirados do meu maço, apagados no cinzeiro de toda a gente. Sempre que ela demorava sentada no sofá o cinzeiro cinzento metálico ia-se saturando de cinza e pontas de cigarro. Falava com os meus amigos as conversa que eram minhas utilizando as ideias que não eram dela, poderiam ser minhas, e ria-se das minhas piadas idiotas. Isto sim, provoca em mim erupções violáceas, cerrar as mãos e unir os dentes, olhá-la seguro de mim, só contigo perco a luz desorientado, e pensar na última vez, pedir desejos de nunca mais, tens de ir porque podemos morrer os dois asfixiados, a faltarem-me as palavras para explicar que a nossa relação não passara de uma curta redacção da escola primária, simples e concreta mas ao mesmo tempo de uma complexidade que só agora vou entendendo, tens de ir, largar o meu perfume, perder-me do teu sentido, ela não sabia que a amizade é igual aos triângulos, três lados espelhados uns nos outros, as medidas onde o amor não cabe por ocupar tempo demais, uma exigência que nem a todos cabe cumprir. Agora, falamos das vidas perpendiculares que vamos vivendo, encontrando-nos ao acaso da espontaneidade, duas, três vezes por ano e falo-lhe de ti e vejo que os olhos dela irradiam ciúme e tristeza, questionam-se onde e porque terão falhado, qual a mentira ou a verdade que não conseguiram encobrir.
  
Escrito por loverboy em 17:27:23 | Link permanente | Comments (0) |

simple girl
the perfect taste that leaves
your mouth the vodka tongue that spits it out violate me january victim
all my life i've wasted for this violate me show me your religion
all my time i've wasted
simple girl i need you in the world
and so the kiss became the cold
after the crash and my cosmetic lows
you resurrect me stand me to attention
take my voices learn to love them
you're the christmas promising the summer all my life i've waited
simple girl i need you in the world want you in the world


 IAMX_ Chris Corner
Escrito por loverboy em 03:08:38 | Link permanente | Comments (1) |

Março 01, 2006

29.


 Sentara-se na montra de uma loja, para descansar da má circulação do sangue, com as pernas dormentes da caminhada, e via os transeuntes passarem ininterruptos, apressados para o seu acto de consumo. Aproximava-se o dia de Natal. Passa de saliência na memória uma mulher de idade, arqueada pelo peso dos anos, e estagna frente a um pedinte sem um braço. Um braço comido na maleficência do trabalho forçado. Um cartaz de cartão, escrito com um marcador quase gasto, tentava em modo directo, sem rodeios, tocar a sensibilidade das pessoas a largar um a moeda na lata colocada a seus pés. Não trabalho e tenho dois filhos para criar, exibindo a sua deficiência sem pudor como se toda a sua sobrevivência dependesse da piedade das pessoas que ali passavam, olhavam-no e seguiam, sem entenderem o seu declínio, a sua necessidade, atirando-o para o mais fundo dos ermos. O mais irrisório é ver esta tristeza acumulada entre o acto mais supérfluo de consumo. Queria fumar mas não podia. Proibição médica em cujos resultados obtidos eram um alterar constante de humor. O sistema nervoso prostrado à dependência da nicotina. No visor do telefone aparecera o número dela e seria demasiado óbvio atender. O segredo dos segredos é não reflectir como os espelhos os rostos que nos olham. O segredo do sem rosto. Pensara por momentos rápidos uma prenda a comprar para ela. Algo que simbolizasse a cegueira. Prescrevera um sem número de coisas mas tinha a certeza que se manteria no anonimato. Queria dar-me a conhecer. Eu, o homem que ela conhecia mais do que bem, que lhe enviava as mensagens anónimas, que se cruzava com ela duas ou três vezes por semana, a troca intensa de olhares quase transformada em sorrisos, a falta de palavras para iniciar uma conversa, o banal tomar café de sempre. Com ela tinha de ser diferente. Acima de tudo, queria tocar-lhe, beijá-la como só uma pessoa fora beijada, talvez o que sentira por todas as outras, ela enfim... deixara-me entregue à luz opaca das circunstâncias. Encontrara-a à hora de todos os encontros. Estendera o mundo aos seus pés para que o calcasse. Vira-a... de entre todas as loucuras a perseguição... o casario compacto na outra margem... a subtileza primaveril das águas do rio aconchegarem o reflexo da velha ponte metálica... a música que tocavam no palco... a descrença que os teus olhos largaram quando a presença de um corpo feminino. Depois, (apesar de te ter procurado em todo o lado), censuraste o meu perfume em recusas salientes de me confrontares. É o cheiro que nos une a todos.
Escrito por loverboy em 21:16:01 | Link permanente | Comments (0) |

Hoje é a noite de espelhar toda a nossa finitude porque quando as palavras se vão nada mais resta senão sair para o frio da noite a fumar um cigarro. O silêncio que faz dentro dessa sala gélida e a palidez da tua pele, menos pele agora, por pouco me fazem largar lágrimas de pó, de serem antigas, fechadas à imenso tempo, lá se vão anos que o traçado liquido não escorre pela minha cara abaixo. Hoje é a noite de te falar todos os segredos, os que tu conheces e os que não conheces nem pensas existirem, vais partir sem volta, nunca mais te verei ou se te encontrar será por um acaso do outro mundo porque os que eram jamais voltarão a ser, sabes que só temos uma hipótese para deixar de respirar. O céu estrelado como que numerado. O fumo do cigarro a confundir-se com o bafo largado pela respiração ruidosa. A garganta por vezes adoece e os barulhos aparecem, tornam-se altos e ruidosos no meio deste silêncio, mas tenho de sair para o esfriado escuro da noite, não vá o fumo denunciar-me aos que amanhã chegarão para largar lágrimas por ti. Este segredo ficará comigo para sempre. Tu eras uma das minhas mulheres. Tivemos o nosso tempo, ou temos ou teremos, depende da perspectiva da vida com que acordo e te sinto, das vezes que te lembro e me apetece estar contigo, agora eu sei, sinto e quero, ou não quero por questão de orgulho, que jamais seremos o que fomos, se alguma vez o fomos, se tudo não passou de uma metragem e agora o genérico sobe pelo ecrã ditando os nomes de todos aqueles que contribuíram para a sua realização. Disseste um dia que estarias sempre aqui, e vais estar, fazes parte dos meus ossos, estás entre as fibras da minha carne, entre o barulho dos meus passos. Estou sentado na soleira, o mármore vai congelando as nádegas, o teu partir vai congelando os meus sentires, um vazio crescente vai ocupando os poros da minha pele, vou sentir falta do teu cheiro e do teu sorriso, as estrelas movimentam-se rápido e quebram algures no abismo, uma explosão de sóis e sonhos, de partidas e chegadas. Eu sou um homem de grandes paixões, tu sabes, tu disseste-o, ou querias dizer mas escreveste ou escreveste porque achaste que não devia ser dito. Gosto demasiado de ti para não te perdoar esta partida. Digamos que foi repentina como a tua chegada. Lembras-te? Volto para dentro onde o frio é menor e a luz não me assusta. Ouvem-se os cães a ladrar, longe, perto, uma música que a noite transporta, a que me fui habituando. Eu sei que se pudesses terias uma enormidade de perguntas a fazer, ou não sei, e sou eu quem te quer dar as respostas gratuitamente, um sentimento de faltar uma qualquer justificação, mas não me apetece falar disso, esta é a tua última noite, e não a quero estragar como sempre estrago tudo, uma tendência deveras maligna para quem tudo quer, e depois de ter a volúpia da destruição emerge soturna, fogo, luz, luxúria, o querer sempre mais e mais alto, o não ter vertigens, o não controlar os sentires, talvez este não seja o nosso tempo ainda. Deixas-me beijar-te a testa? Que falsidade poderá estar no interior de um beijo quando pedido com o olhar? Não são os teus lábios que me fazem suspirar pelos teus beijos, é o que em ti rasteja, é o que pensas e não controlas, é o que em nós pesa. Agora estou confuso. Por momentos não sabia se estava a falar de ti, se dela, aquela de quem nunca falamos, mas que sempre existiu. Vou sentar-me aqui a descansar um bocado.  
Escrito por loverboy em 02:28:36 | Link permanente | Comments (0) |